Oswaldo Porchat/`Os dogmas podem provocar grandes tragédias´ Por Alexandre Lyrio
CORREIO DA BAHIA - Como o senhor conseguiu se livrar das amarras da filosofia tradicional, absoluta, dogmática, e passou a refletir mais sobre o cotidiano?
OSWALDO PORCHAT - Eu sempre tive um grande apego à vida cotidiana. Sempre procurei a filosofia que não pairasse nas alturas, mas que valorizasse as coisas comuns e que estivesse ao lado dos homens.
CB - O ceticismo é capaz disso?
OP - A leitura dos céticos gregos me fez ver que as filosofias se enredam em contradições, e que esse é um conflito insanável, sem fim, e sem remédio. Nesse contexto, descobri no ceticismo não apenas a crítica à razão dogmática, mas também a compatibilidade com a vida ordinária do ato cotidiano. O cético grego, ao contrário de tudo que se pensa sobre ceticismo, é tão somente um homem ordinário, comum e que percebe não haver critérios para resolver as disputas das filosofias. O cético entende que nós não temos senão a vida comum pra viver.
CB - Então, as pessoas têm a necessidade de acreditar em algo "maior"?
OP - Vivemos numa fábrica de mitos. Sempre fomos contaminados por uma espécie de doença da razão. O cético não só renuncia a tudo isso como também quer curar o homem do vício na crença nas coisas absolutas e verdades eternas. Somos advogados da vida comum, e ficamos ao lado dela. Não se pode acreditar numa capacidade da razão humana de sair desse mundo e elevar-se a uma realidade considerada verdadeira.
CB - Acreditar no ceticismo não é acreditar numa verdade?
OP - Não há como acreditar no ceticismo já que ele não afirma tese alguma. Ele se apresenta como uma atitude crítica em relação àqueles que pretendem ter a verdade. O cético não diz "não existe a verdade". O cético é muito mais modesto e diz que ainda não descobrimos aquilo que se chama de verdade. Ainda não temos como aceitar um discurso que se pretenda verdadeiro. Nós não afirmamos nada. Apenas descrevemos a nossa incapacidade de encontrar a verdade.
CB - Não havendo verdade absoluta, como se comporta o cético no plano moral ou diante das leis?
OP - O fato de não haver valores absolutos não quer dizer que não haja valores. E também não quer dizer que eles não podem ser superados quando retrógrados. Uma criança formada com um moralismo excessivo pode descobrir na adolescência que aquela norma é um exagero, e que fazer daquilo uma obrigação moral é algo que não se sustenta. Tomemos uma norma criada pela maioria das civilizações: "não matar", por exemplo. O cético se dá conta de como relativa ela é. Nós não precisamos de normas absolutas para não matar, ou para não ser desonesto ou para não ser maldoso ou hipócrita.
CB - As normas não existem para ser seguidas?
OP - Nós, os céticos, também precisamos de normas para agir. Agora, quais normas aceitar e quais não? Não há critérios absolutos para determinar isso. Se uma norma me parece entrar em conflito com outras coisas eu abandono essa norma. Quando se fala que tal norma está sendo seguida, será que o fato de segui-la não é algo prejudicial? É preciso ir em frente com o espírito crítico sem pretender ser o "dono da verdade". Não temos a verdade e talvez não haja verdade nenhuma a ser buscada. Talvez o que haja é uma vida humana a ser construída. Para isso tem que haver inteligência, inventividade e boa vontade.
CB - A mensagem do senhor sempre foi a de "façamos filosofia no Brasil". Não se faz filosofia no país?
OP - São poucos os grupos, como o de ceticismo, que se esforçam para pensar filosoficamente. Ao longo das décadas desenvolveu-se primeiramente no Brasil uma filosofia teoricamente pobre. Introduziu-se o hábito de se estudar a história da filosofia. Eu acho excessiva a ênfase na historiografia no Brasil. Não quero dizer que esses estudos não tenham que ser rigorosos, mas se esqueceu a parte da inventividade da criação filosófica e a formação nas universidades foi dirigida mais para formar historiadores da filosofia do que para fazer os estudantes filosofarem. Ser filósofo pra mim é ter inquietações filosóficas. Sempre estimulei os meus alunos a expor suas idéias, a ousar e a não ter medo de ser criticado.
CB - O senso comum considera o cético um pessimis-ta...
OP - Não acho que o cético seja um pessimista, nem otimista. O cético é um homem comum que não acredita nos delírios da razão para descobrir a verdade. Em vez de querer construir realidades definitivas, ele tenta viver a sua vida, organizando-a da melhor maneira possível. As pessoas têm uma visão caricatural e deformada do ceticismo. Muita gente hoje é cético sem saber.
CB - O que o senhor acredita haver de positivo na natureza humana?
OP - Talvez se possa dizer que haja no ser humano uma certa disposição natural à solidariedade. Um dos maiores filósofos americanos no século XX defendeu que uma certa tendência à solidariedade para com os outros pode ter sido algo adquirido com a evolução da espécie. A solidariedade seria algo favorável à preservação do homo sapiens. O cético não tem nenhuma objeção, a priori, a tal tese evolucionista. Talvez os seres humanos tenham uma disposição genética e até biológica a uma solidariedade.
CB - O senhor passou por algumas etapas até conseguir conciliar filosofia e vida cotidiana. Isso apareceu como uma questão simplesmente teórica ou existencialista particular?
OP - É difícil explicar a origem desse meu interesse pela vida comum. A única coisa que posso dizer é que tive uma formação cristã sólida, abandonada em seguida. A forma de cristianismo da qual eu tive contato valorizava muito os seres humanos. Depois tive uma formação política socialista que ia na mesma direção. Talvez tenha ficado em mim essa marca de igualdade e amor à humanidade. Quando filósofo passei a valorizar a vida comum e não os devaneios do espírito.
CB - A filosofia que interessa ao senhor é aquela que diz respeito à vida das pessoas. De que forma ela pode ajudar no dia-a-dia do homem comum?
OP - Uma das principais funções do que eu chamaria de uma postura filosófica sadia e crítica, que eu acho que é a cética, é conseguir livrar as pessoas de dogmas de qualquer natureza. Dogmas cientificistas, religiosos ou políticos. Mas a solução prática dos problemas humanos não é a filosofia que tem que dar, e sim as organizações criadas pelos próprios homens. A única coisa que a filosofia pode fazer é contribuir para que isso se faça sem dogmas.
CB - A que conseqüências o dogma pode levar se seguido ao extremo?
OP - Quando transformados em fundamentos de um regime ou de um grupo, os dogmas podem ser responsáveis por grandes tragédias, inclusive. A raça superior, a religião superior, a verdade contra os infiéis. Hoje temos o fundamentalismo cristão e os fundamentalismos árabe e judaico. Muitas vezes, como na política americana de Bush, esse fundamentalismo está acoplado a interesses econômicos. Já o fundamentalismo de Bin Laden, por exemplo, é religioso pura e simples.
CB - É positivo duvidar de todo e qualquer discurso?
OP - Por mais sedutor que um discurso lhe pareça deve-se considerar que se trata de algo a ser submetido a diálogos, discussões e debates. Estar com o pé atrás é examinar criticamente todo e qualquer discurso, mesmo que ele esteja envolto numa retórica impecável. Mas não há fé na linguagem. Quem tem uma boa formação filosófica cética e sadia não acredita facilmente em alguma coisa ou num discurso. O que não quer dizer que vai recusá-lo. A consciência de que não há critérios definitivos absolutos me parece algo muito positivo.
CB - O senhor disse que teve uma formação cristã. O senhor acredita em Deus?
OP - Eu diria que não vejo, se nós pensamos criticamente, elementos para afirmar a existência de Deus.
Retirado de: http://www.filosofia.com.br/vi_jornal.php?id=12
terça-feira, 30 de junho de 2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário